Miopia está cada vez mais comum e a pandemia só agrava a tendência

Miopia está cada vez mais comum e a pandemia só agrava a tendência

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Confira agora a entrevista que a Dra. Marina Roizenblatt deu hoje para o uol sobre “Miopia está cada vez mais comum e a pandemia só agrava a tendência”.

Cada vez mais crianças precisam usar óculos, algo que, pouca gente sabe, também tem a ver com estilo de vida. Quem passa muito tempo em ambientes fechados durante a infância tem maior propensão à miopia, e o uso de tablets ou smartphones nessa fase só piora tudo. Conclusão? Tudo indica que a pandemia deve intensificar o aumento da prevalência desse erro de refração, uma tendência que é mundial.

Um estudo realizado na China com mais de 120 mil participantes de 6 a 13 anos, mostrou que, após o lockdown de 5 meses no ano passado, a miopia disparou 400% nas crianças que tinham 6 anos de idade, 200% aos 7 anos e 40% aos 8. Os resultados foram publicados no periódico Jama Ophthalmology, este ano. Vale mencionar que os asiáticos já apresentam uma prevalência mais alta de miopia, que chega a 62% na faixa etária de 6 a 17 anos.

No mundo todo, o crescimento já era motivo de preocupação antes da Covid-19. A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que a prevalência de miopia passe dos atuais 35% para mais da metade da população do globo em 2050. No Reino Unido, por exemplo, a miopia na faixa etária de 10 a 16 anos dobrou nos últimos 50 anos. No Brasil, a prevalência varia de 11% a 35%, segundo especialistas.

“A tendência é de crescimento no mundo todo, mas entre brasileiros é mais galopante porque somos o país em que a população permanece mais horas conectada aos dispositivos digitais”, alerta o oftalmologista Leôncio Queiroz Neto, presidente do Instituto Penido Burnier, em Campinas (SP) e membro do Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO).

Dificuldade de enxergar de longe

Antes de entender melhor quais os fatores que interferem no risco da miopia, é preciso compreender o que provoca esse erro de refração. A dificuldade de enxergar de longe ocorre porque as imagens são formadas na frente e não sobre a retina, a película no fundo do olho responsável por transmitir a luz recebida ao cérebro. “Todo míope sofre duas alterações fisiológicas: aumento na curvatura da córnea (lente externa do olho) e alongamento do comprimento axial (distância entre a córnea e a retina)”, descreve Queiroz Neto.

O risco de herdar o erro de refração dos pais depende da genética. Se pai e mãe são míopes e portadores de gene dominante, a criança com certeza será míope. Se somente um dos pais tem o gene recessivo, o risco cai para 75% ou 50%. Quando ambos têm o gene recessivo, a predisposição varia de 50% a 0. Se apenas um dos pais tem gene dominante, a chance, para o filho(a), é de 50%. E se apenas um deles tem o gene recessivo, o risco é de 25%, mas a criança também pode não herdar a miopia.

Falta de sol e de horizonte

Mas o oftalmologista explica que são fatores ambientais os responsáveis pelo “boom” da miopia no planeta. “Crianças que permanecem em ambientes fechados têm maior predisposição porque, até a idade de 10 anos, os olhos estão em desenvolvimento, e precisam ser treinados para focalizar imagens distantes, à meia distância e próximas, bem como moldar a visão às diferentes intensidades de luminosidade”, esclarece.

Mas não é só isso: “A exposição ao sol aumenta a produção de dopamina, hormônio do bem-estar que ajuda a controlar o crescimento axial do olho. Outro benefício é a radiação solar ultravioleta, que enrijece a esclera, parte branca do olho, impedindo o curvamento da córnea”, complementa. O oftalmologista ainda comenta que, no Brasil, o sol responde por 70% da disponibilidade de vitamina D, que tem receptores na córnea e controla mais de 900 pares de genes relacionados à miopia.

Eletrônicos aumentam o risco

Dá para entender por que as crianças “de antigamente”, que brincavam na rua ou no parque em vez de assistir televisão ou ficar no videogame, tinham menor necessidade de óculos? E tem mais: telas pequenas e próximas dos olhos, como as de tablets e smartphones, ainda provocam o que os médicos chamam de “miopia acomodativa”, uma dificuldade temporária de enxergar à distância, provocada pelo espasmo dos músculos responsáveis pela alternância do foco para perto, mais ou menos e longe.

“Se as atividades online não forem intercaladas com as externas, a miopia se torna um mal permanente, porque nossos olhos não foram feitos para fixar apenas o que está próximo”, afirma Queiroz Neto. Um levantamento realizado pelo especialista com 360 crianças de 6 a 9 anos de idade que ficavam conectadas diariamente a algum equipamento eletrônico por seis horas indicou que 21% apresentaram miopia. A prevalência apontada pela CBO para a faixa etária é de 12%.

Miopia traz riscos à visão

Se você também não desgruda dos eletrônicos, deve estar pensando, a esta altura, que usar óculos ou lentes de contato compensa os benefícios que a tecnologia nos traz. Mas saiba que crianças com alto grau de miopia pode ter outros problemas de visão, já que o tal do crescimento axial do olho fragiliza a retina.

O afinamento dessa película pode levar ao chamado “descolamento de retina” ou até a sua ruptura, uma emergência oftalmológica. Os primeiros sinais, avisa Queiroz Neto, são enxergar clarões, uma mancha preta na visão ou moscas volantes (manchas causadas por resíduos no enchimento gelatinoso do globo ocular).

A miopia ainda pode aumentar o risco de glaucoma, doença silenciosa que eleva a pressão interna do olho e, aos poucos, leva o nervo óptico, podendo levar à perda de visão se não tratado com colírio adequado. Quer mais? Também eleva a propensão de retinopatia miópica, uma atrofia da porção central da retina que pode levar a hemorragia.

Controlar a progressão é possível

Por tudo isso, quem tem miopia deve consultar o oftalmologista com frequência, para fazer exames de rotina, e sempre que apresentar qualquer alteração. Além dos check-ups regulares, hoje é possível controlar a progressão da miopia na infância, a fim de diminuir o risco de sofrer com as complicações acima no futuro.

A oftalmologista Marina Roizenblatt, especialista em retina cirúrgica, diz que as principais intervenções descritas na literatura médica para desacelerar a progressão da miopia em crianças são o uso de óculos multifocais, tratamento com colírios da classe “antimuscarínica” e lentes de contato de diferentes tipos.

Um artigo de revisão publicado em 2020 pela rede Cochrane (banco de dados de revisões sistemáticas) confirmou a eficácia dos colírios antimuscarínicos são eficazes. “Além disso, as lentes de contato e óculos multifocais também podem trazer um pequeno benefício. O estudo também mostrou que o uso de lentes de contato sem a finalidade de corrigir o grau, mas com desenho específico que objetiva remodelar a córnea, técnica essa conhecida como ortoceratologia, é mais eficaz no controle da miopia do que o uso de lentes monofocais”, afirma.

Lentes que corrigem e tratam

Um tratamento que acaba de chegar no Brasil com esse fim, chamado MiSight 1 day, promete desacelerar a progressão da miopia ao mesmo tempo em que corrige a visão. Trata-se de uma lente de contato gelatinosa de descarte diário, indicada para crianças de 8 a 12 anos com 0,75 a 6,00 graus de miopia, desde que não tenham outras patologias, como o olho seco. As lentes devem ser usadas por, pelo menos, dez horas ao dia.

“Estudos de seis anos realizados em diversos países demonstraram que a partir de três anos de uso, com acompanhamento médico a cada três meses, a redução média na progressão da miopia foi de 59%”, conta Queiroz Neto, que atualmente tem três crianças em tratamento. “Elas têm boa aceitação porque a lente permite boa oxigenação da córnea e, por isso, é bastante confortável”, diz.

Segundo Gerson Cespi, diretor presidente da CooperVision Brasil, fabricante do MiSight, o custo do tratamento é de aproximadamente R$ 500 por mês. E ainda não há cobertura por planos de saúde ou pelo SUS (Sistema Único de Saúde).

Conselhos para os pais

É fundamental que as crianças façam visitas regulares ao oftalmologista desde cedo. Também é importante ter atenção a sinais como estrabismo, atitudes como precisar sentar nas primeiras fileiras, ficar perto da televisão, manter livros próximos do rosto, não enxergar objetos distantes, piscar demais e esfregar os olhos com frequência.

Independente de usar óculos ou não, limitar a exposição aos eletrônicos, fazer pausas e estimular a prática de atividades ao ar livre é fundamental para qualquer criança.

Olho seco: outro risco

Marina Roizenblatt observa que outra condição que agora está mais frequente entre os mais jovens é o olho seco: “Aqui, novamente, o vilão é o tempo excessivo de exposição às telas, uma vez que é descrito na literatura uma diminuição da frequência de piscadas quando se está mexendo no computador, quando comparado à leitura de um livro, por exemplo”. Ela ainda cita o aumento da prevalência de distúrbios de acomodação do cristalino, “que nada mais é do que problema na contração dos músculos oculares”.

A recomendação da oftalmologista é tentar fazer pausas a cada aproximadamente uma hora nas atividades extracurriculares realizadas nas telas. Essas tarefas devem ser intercaladas por leitura de impressos, ou, se possível, atividades externas. “Além disso, deve-se atentar para quando a criança se queixar de olho vermelho, sensação de areia nos olhos e, principalmente, baixa visão”, acrescenta. Diante dos sintomas, é recomendável o exame oftalmológico completo.

Fonte: https://doutorjairo.uol.com.br/leia/miopia-esta-cada-vez-mais-comum-e-pandemia-so-agrava-tendencia/